A criação deste Blogue, ideia de António Melo, tem como objectivo divulgar, defender o Sport Lisboa e Benfica e a sua Gloriosa história. Qualquer opinião aqui expressa vinculará apenas o seu autor, Alberto Miguéns.

SEMANADA: ÚLTIMOS 7 ARTIGOS

31/10/2016

Agora o Sporting CP Já Não Tem Desculpa

31/10/2016 + 11 Comentários API
EM NÃO SABER CONTAR O NÚMERO DE TÍTULOS DE CAMPEÃO NACIONAL.




Até o seu presidente apresentou (e elogiou) o livro em que o autor é peremptório:




Como não tenho "imagens sonoras" (embora gostasse) só posso deixar uma ligação a uma notícia (clicar).





(clicar em cima para obter melhor resolução)


Agora três conclusões: uma constatação, uma «chicoespertice» e uma perplexidade!





Constatação: Rui Miguel Tovar evoluiu em 13 anos
Porque em 2003 considerava que o campeonato nacional da I Divisão era uma competição que não tinha relação com o campeonato da I Liga. Tal como o Campeonato de Portugal não se relacionava com a Taça de Portugal. Eu sei disto porque tive oportunidade (dada por um responsável do Benfica pelo "marquetingue" - numa estória que conto à frente - de nome Seara Cardoso) de falar com Rui Miguel Tovar a propósito da edição do "Almanaque do Centenário 1904 - 1954" do SL Benfica. E só "à porrada" é que os autores Rui Tovar/Rui Miguel Tovar/ João Mendonça (coordenador editorial) juntaram o campeonato da I Liga ao campeonato nacional da I Divisão. Não queriam, mas não tiveram alternativa. Como se prova.


Esta é a página do referido Almanaque, que recusei "liminarmente" (na versão inicial). "Espernearam" mas foram obrigados aceitar (e surgiu esta versão final) na página 17.


Apesar de emendarem (foram obrigados) o quadro global deixaram um "rabo-de-palha" no Almanaque. Em 1941/42 o "Glorioso" conquistou o quarto "Nacional", o primeiro com a designação decidida em 1938: Campeonato Nacional da I Divisão. Na página 155, o "rabo-de-palha" pois para "eles", em 2003 (pelo menos...) os campeonatos da Liga não eram campeonatos nacionais

Reconstituição de memória da proposta que me foi apresentada pela editora Almanaxi (João Mendonça/Rui Tovar/ Rui Miguel Tovar) e que obriguei a emendar pois não autorizaria a publicação do Almanaque. Ainda bem que temerosos do meu "poder" - que se provou ser virtual - aceitaram porque se fizessem "finca-pé" até tinham editado assim, como se pode constatar no capítulo seguinte

"Chicoespertice": Seara Cardoso é o responsável pela alteração dos dados históricos do Futebol do "Glorioso"
Estava o Benfica nas instalações provisórias da Lisboa Gás (Cabo Ruivo) - entre a desmantelamento da "Saudosa Catedral" e a inauguração das actuais instalações - quando Seara Cardoso solicita a minha colaboração para verificar a qualidade de um Almanaque que Rui Tovar e companhia pretendiam editar acerca do Benfica. Coloquei desde logo uma questão: «Sportinguistas? Então porque ainda não editam um para o seu clube? Cheira-lhes a grandeza deste lado? A dinheiro lampião?» Seara Cardoso disse-me que eu tinha poder para impedir a publicação se tal não tivesse qualidade. Conhecendo-o já sabia que era "treta". Mas para que não me fosse imputada a responsabilidade...aceitei. Combinado o encontro Alberto Miguéns/Almanaxia, na Lisboa Gás, pedi a Seara Cardoso que estivesse presente. Disse que não podia. Então mantenha-se contactável (ou seja, telemóvel ligado e "atendível"). Vendo o projecto - abri aleatoriamente umas quantas páginas - percebi que tinha tantos erros que iria modificar a Gloriosa História na componente futebol. Erros de diversos tipos. Fotografias que não correspondiam a equipas do Benfica daquela temporada e ao jogador legendado, jogos não considerados para competições oficiais, palmarés desvirtuados - Ângelo não conquistara qualquer título europeu, por exemplo - confusão com as fichas individuais dos futebolistas - uns que eram o mesmo dividiam-se em dois e outros que eram diferentes apareciam como o mesmo, etecetra. Erros a mais. O pior. Na página do resumo do palmarés, separava-se o campeonato da I Liga do Campeonato Nacional da I Divisão. Era o cúmulo da xicoespertice alagartada. Disse-lhes que o Almanaque não tinha qualidade para ser editado. Fizeram um "choradinho" a dizer que gastaram milhares de horas. Retorqui. No Benfica não se gasta tempo...ocupa-se o tempo. Por mim não é editado pois viciará o Futebol do Clube, mas não sou eu que mando. Será Seara Cardoso. Nisto liguei o número de telemóvel e...nada. Nada que eu já não esperasse! Disse-lhe - repetindo - que por mim não autorizava a edição. Iria falar com Seara Cardoso e seria ele a falar com eles. Despedimo-nos.
Quando falei com Seara Cardoso disse-lhe que o Almanaque não tinha qualidade para ser publicado. Olhou para mim e veio com a conversa fiada que já esperava embora nem imaginasse tal justificação. Disse-me ele «Sabe melhor que ninguém que o Benfica não nada em dinheiro. O  Benfica precisa de obter receitas com tudo o que puder.» Respondi que os valores obtidos pelas receitas do Almanaque (um punhado de euros) não justificavam viciar a história do Futebol, mas que não fosse por mim que o Benfica falisse. Não queria ficar como responsável por isso.  Que se publicasse o Almanaque. Só colocava duas obrigações (tendo como ele prometera a última palavra acerca da publicação do livro):
1. No quadro do palmarés (logo no início do Almanaque) teriam de alterar o número de conquistas no campeonato nacional passando de 27 (idiotice da Revista do Record, onde os «Tovares» pai e filho escreviam) para 30. Até "rebitei": antes um Benfica falido com 3o títulos de campeão nacional que rico com 27!;
2. Que Seara Cardoso NUNCA MAIS solicitasse a minha colaboração, pois colaborando eu gratuitamente com o Benfica - e querendo manter a mesma situação não tendo interesse (nem necessidade) em ser funcionário do Clube - não estava para perder tempo com inutilidades. Tinha mais onde ocupar as horas que me fazia gastar, estas sim, gastar! E assim foi!

O meu Benfiquismo é incorruptível. Carrega Benfica!




Perplexidade: Então se "TODOS" (até estes/clicar) referem que a Taça de Portugal é a continuação do Campeonato de Portugal...
Porque continuam a separar os títulos em duas competições distintas não o fazendo para o Campeonato da I Liga e Campeonato Nacional da I Divisão? Porque só assumem a artigo 6.º do Relatório e Contas da FPF de 1938/39 a cinquenta por cento?




E não venham tentar enganar-me com a FPF! Por que a FPF nunca publicou no seu portal uma lista das duas (ou quatro competições) que oficializasse o que decidiu em 1938. Ao contrário das restantes Federações da FIFA. A FPF desde há anos que não diz sim, nem não, nem nim. Ignora o assunto. Não se pronuncia. Se por iniciativa de cada um agregam os títulos do Campeonato da I Liga no Campeonato Nacional da I Divisão porque não fazem o mesmo em relação ao Campeonato de Portugal e à Taça de Portugal?  

CCC: Coerência,  critério e coragem...por favor!

Alberto Miguéns


NOTA1: O Benfica, a sua grandeza, atraiu e atrai muita Fauna. Que querem "comer um Benficadito": um pedacito do Benfica. Até Benfiquenses, BenfiQuistos e Benfiqueiros. Um dia que faça umas "Memórias Benfiquistas" há muito para dizer. Ui. Algumas histórias são tão escabrosas que só vai acreditar nelas quem acredita "piamente" em mim. Em várias delas a realidade supera a ficção!

NOTA2 (uma borla dada por um Benfiquista - sempre generosos - para os sportinguistas): Na próxima edição do livro - além de juntarem os campeonatos de Portugal aos títulos na Taça de Portugal (pois fez essa declaração na apresentação do livro) - corrijam o "Ringue" para "Rinque". Ringue é o espaço onde se disputam competições de Artes Marciais, Luta e Pugilismo. Rinque é um campo de jogos com tabelas laterais onde se pratica Hóquei em Patins e Futebol de Salão, por exemplo.




Sempre pensei que fizesse parte da formação como jornalistas desportivos distinguir as palavras e espaços. A não acreditarem em mim cliquem.



NOTA3 (pelas 02:20 horas, para justificar um oportuno comentário de um leitor pelas 01:59 da matina): Até no Almanaque o autor afirma que já não existia campeonato Regional mas qual ilusionista aparece como o 19.º título de Campeão Regional, como se lê no texto da página 223 e vê depois no resumo estatístico da temporada na página 228. Então não havendo Campeonato de Lisboa em 1948/49 como pode o SCP ter 19 títulos no campeonato de Lisboa sendo este o 19.º (1947/48) como descreve a página 26? Mais uma emenda para a 2.ª edição.Houve de facto uma competição regional oficial que foi a Taça de Honra, mas como o autor teima em não agendar esses jogos fica o registo no palmarés global mas não quem esteve presente e os resultados. Nem nesta Taça de Honra nem das outras 12! Mas são 13 Taças de Honra de Lisboa e não 12. Tal como são 18 campeonatos regionais e não 19. Como o autor demonstra em 1947/48 ao escrever nessa temporada «Já sem o Campeonato de Lisboa...» O palmarés inventado do SCP provoca insónias nos Benfiquistas! Será para isso que eles inventam tanto?




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30/10/2016

Guilherme Espírito Santo 97

30/10/2016 + 7 Comentários API
ENQUANTO O MUNDO DO FUTEBOL COMEMORA O 56.º ANIVERSÁRIO DE MARADONA OS BENFIQUISTAS RECUAM 41 ANOS.


Em 1919, há precisamente 97 anos, nasceu uma Gloriosa Estrela. Que brilhou com intensidade para lá dos campos de Futebol e pistas de Atletismo até ocupar o seu lugar no “Quarto Anel” em 25 de Novembro de 2012, aos 93 anos. Ainda é o segundo futebolista mais novo a estrear-se no “Glorioso” (depois de Hugo Leal) e o mais jovem a marcar golos com o “Manto Sagrado”.


Benfiquismo: de Lisboa para Luanda. De Angola para Portugal
Guilherme Santana Graça do Espírito Santo nasceu na cidade de Lisboa, em 30 de Outubro de 1919. Ainda muito novo, aos oito anos, foi viver com a mãe para Luanda. Já era Benfiquista – desde que se lembra, desde os três anos – quando foi para Angola. Foi na filial luandense (Sport Lisboa e Luanda) do “Glorioso” que se iniciou no futebol, jogando duas épocas: 1935 e 1936. A mãe não gostou que o futebol tivesse prioridade sobre a escola. Em Julho de 1936, aos 16 anos, rumou para Lisboa, para continuar (estar “apenas” concentrado…) os estudos vivendo na casa dos avôs maternos. Mas não seria assim… A ida à Secretaria do SLB, na rua Jardim do Regedor tudo mudaria. Foi treinar ao nosso estádio das Amoreiras. Agradou. Ficou.

Goleador depois de Vítor Silva
Estreou-se no “Glorioso”, em 20 de Setembro de 1936, num jogo particular com o Vitória FC, em Setúbal, no campo dos Arcos. O Benfica venceu, por 5-2, com Espírito Santo a entrar ao intervalo, marcando um golo aos 85 minutos. Com o treinador Vítor Gonçalves conquistou a titularidade, permitindo ao clube do “Manto Sagrado” resolver o problema do abandono precoce de Vítor Silva avançado-centro, Glória do Benfica e de Portugal, após lesão grave na cula vertebral após pancada num joelho, recordista de golos no Benfica (202) e na Selecção Nacional (8).


Ganhou a titularidade na primeira época
Estreou-se em 20 de Setembro de 1936, com 16 anos, 10 meses e 20 dias, entrando ao intervalo, em Setúbal com o Vitória FC, marcando o último golo da vitória por 5-2. Jogou oficialmente no Campeonato Regional de Lisboa em 11 de Outubro de 1936, num empate, sem golos, no campo do Casa Pia AC. Tinha 16 anos e 346 dias. Faltavam 19 dias para fazer 17 anos! No ultimo jogo de Vítor Gonçalves como treinador. Na 2.ª jornada do Campeonato Regional, em 18 de Fevereiro de 1936, seria Lipo Hertzka a assumir o cargo de treinador sucedendo a Vítor Gonçalves como treinador Campeão Nacional. Vítor Gonçalves em 1935/36 e Lipo Hertzka em 1936/37 e 1937/38.


Entre 1934/35 e 1946/47 não havia campeonato nacional sem apuramento pelo campeonato regional
É bom recordar que até 1946/47 era nos Regionais que os clubes se apuravam para o campeonato nacional. Se em Lisboa um clube não ficasse nas quatro primeiros lugares ia jogar a partir de Janeiro no segundo escalão. Os Regionais tinham de terminar até 31 de Dezembro de cada ano para saber que clubes estavam apurados para o campeonato nacional que em regra iniciava-se no primeiro ou segundo domingo de Janeiro seguinte. Por isso Guilherme Espírito Santo teve de esperar pela primeira jornada, em Setúbal, num regresso feliz ao campo dos Arcos, onde se tinha estreado com o “Manto Sagrado”. 


Um início de ano de 1937 a dar o mote
Guilherme Espírito Santo perdeu a titularidade com o treinador Lipo Hertzka, passando a jogar na Reserva no campeonato regional. Mas depois fez dois excelentes jogos particulares com o futebolista a brilhar em vários jogos, distinguindo-se em dois encontros particulares com o FC Porto, em 20 e 25 de Dezembro, marcando respectivamente, três e um golo, na vitória por 5-1 (casa) e empate a três golos (fora). Quando o campeonato da I Liga teve início foi ele que surgiu a titular como avançado-centro. Participou com golos na 1.ª jornada do 3.º campeonato nacional, em Setúbal, com o Vitória FC, marcando os dois golos do “Glorioso”, na vitória por 2-1! O Vitória FC colocou-se na frente, mas ele deu valor ao trabalho da equipa fazendo o 1-1 e o 2-1. Em 10 de Janeiro de 1937. Tinha 17 anos, 3 meses e 11 dias.


Em 1936/37: Bicampeonato Nacional
O “Glorioso” conquistou o título – Bicampeonato em três edições da competição – brilhando da 1.ª à última jornada. Foram 14 jogos, com 12 vitórias e duas derrotas, 57/13 em golos. A segunda volta foi arrasadora, com 31/5 em golos. Mas mais do que estes valores globais avultam as duas goleadas ao Sporting CP (V 5-1) e FC Porto (V 6-0). Com Guilherme Espírito Santo a marcar, respectivamente, dois e um golo. Mas a jogar esplendorosamente.


Um grande jogo
Na 14.ª (e última) jornada, o Benfica na liderança, com mais um ponto que o CF “Os Belenenses” (2.º lugar), mais 4 pontos que o Sporting CP (3.º lugar) e mais 8 pontos que o FC Porto (4.º lugar) recebemos o… FC Porto no Estádio das Amoreiras. Só a vitória garantia o Bicampeonato. Espírito Santo esteve resplandecente marcando um golo (3-0 aos 27 minutos) e liderando o ataque fazendo jogo com os interiores ou meia-avançada {(Rogério Sousa (direita) e Luís Xavier (esquerda)} e pontas ou extremos {Domingos Lopes (direita) e Valadas (esquerda)}. Um Benfica demolidor.


Titularidade na primeira época, indiscutível na segunda (1937/38)
Depois de se estrear na equipa principal (20 de Setembro de 1936) e de ser um dos pilares da conquista do Bicampeonato Nacional em 1936/37 (totalista nas 14 jornadas com 16 golos) a segunda temporada – 1937/38 - com o “Manto Sagrado” foi arrasadora. O “Glorioso” jogou 39 encontros, com 3 510 minutos. Guilherme Espírito Santo jogou 37 (3 330 minutos). Apenas esteve ausente em dois encontros, ambos já próximos do final da temporada: em 1 de Maio de 1938 num jogo particular, no nosso estádio das Amoreiras, com o Luso FC Barreiro (V 7-1); e em 22 de Maio de 1938 na 2.ª mão dos oitavos-de-final do Campeonato de Portugal (actual Taça de Portugal) no empate (1-1) no campo do União Futebol Lisboa, depois de 3-0 na 1.ª mão (Espírito Santo marcou um golo).

28 de Novembro de 1937. Estádio dos Balaídos, em Vigo. XIII Espanha - Portugal. Uma equipa capitaneada por Gustavo Teixeira (do SLB) onde jogavam mais quatro benfiquistas: Gaspar Pinto, Albino, Valadas (marcou o 2.º golo) e Guilherme Espírito Santo. Gaspar, Gustavo e Albino - por esta ordem - estão em pé ao lado do seleccionador Cândido Oliveira (casaco castanho e laço no pescoço). Valadas e Espírito Santo estão em baixo, os dois primeiros a contar da direita

Por Portugal: Estreia como internacional aos 18 anos e 29 dias
Depois de tanta qualidade e quantidade (golos) Guilherme Espírito Santo acabou por ser seleccionado para representar Portugal. Foi o 98.º internacional português, estreando-se na Selecção Nacional, ao 36.º encontro de Portugal, em 28 de Novembro de 1937, com 18 anos e 29 dias, no XIII Espanha-Portugal (V 2-1, em Vigo, no Estádio dos Balaídos) e atingiu a 8.ª internacionalização, em 21 de Maio de 1945, no V Suíça-Portugal (D 0-1, em Basileia, no Estádio do Rankof). Foi o 17.º goleador português, marcando um golo, com 18 anos, dois meses e dez dias, em 9 de Janeiro de 1938, no III Portugal-Hungria, fazendo o 1-0, aos onze minutos, no 37.º jogo internacional de Portugal.


Nove golos em… 52 minutos
Em 5 de Dezembro de 1938, há 74 anos, na 8.ª jornada do campeonato regional de Lisboa, o Benfica recebeu, no Estádio das Amoreiras, a equipa do Casa Pia AC, vencendo por 13-1 com Espírito Santo a marcar 9 golos, recorde de um futebolista do Benfica num jogo da equipa principal (se é que no Benfica não são todas equipas principais). E o Benfica até começou a perder, aos 6 minutos. E só aos 38 minutos conseguiu empatar, através de Espírito Santo. Depois seguiram-se mais 11 golos, com oito de Espírito Santo (39’, 49’, 54’, 60’, 82’, 83’, 84’ e 89 minutos. Contava ele que, um amigo também defesa casapiano a meio do segundo tempo questionava porque não parava ele de marcar a uma equipa onde tinha tantos amigos. Guilherme Espírito Santo pacatamente, encolheu os ombros dizendo: “Eu nem procuro a bola, elas aparecem-me à frente!”.


Quando um obstáculo era recorde nacional
Na época de 1937/38, enquanto treinava futebol no Estádio das Amoreiras, a bola saiu do campo. Junto à linha lateral, os saltadores do Clube treinavam laboriosamente o salto em altura, com a fasquia já próxima de 1,82 metros, em busca de melhorar um recorde nacional que datava de… 1915! Espírito Santo correu para lá da linha lateral para recolher a bola. Deparando-se com o aparelho do salto em altura - por instinto - saltou, para não embater nesse obstáculo que dificultava chegar à bola! Saltou e não derrubou a fasquia. Os atletas do “Glorioso”, em particular Pedro Vasconcelos que estava muito próximo da marca de 1,82 metros, pasmaram… Provavelmente o avançado-centro do futebol do Benfica e internacional português batera o recorde nacional do salto em altura!


Depois houve que treinar atletismo
Espírito Santo procurava uma bola que saíra de campo das Amoreiras, deixando espantados, os atletas do “Glorioso” que treinavam o salto em altura. Depois, os saltos com intenção já não resultavam! Tinha receio de bater na fasquia ou cair mal! Havia que treinar, com técnica e adaptação às botas de atletismo. Com pouquíssimo treino, mas afincado, bateu, no Verão de 1938, três recordes nacionais absolutos: em 3 de Julho, o recorde nacional de salto em altura (1,825 metros); em 10 de Julho, o do salto em comprimento (6,89 metros); e em 17 de Julho, o do triplo salto (14,015 metros). Ainda em 1938, sagrou-se campeão nacional júnior e sénior, individual e por equipas. 


Mais novo que o velho recorde
Quando Pascoal de Almeida, do GS Cruz Quebrada, conseguiu uma espantosa marca de 1,82 metros em 8 de Agosto de 1915 afirmou, quando questionado acerca da extraordinária proeza. “Ainda não nasceu em Portugal quem irá bater esta marca!” E não é que tinha razão. Guilherme Espírito Santo nasceria mais de quatro anos depois, em 30 de Outubro de 1919. Quando o “velhinho” recorde de Pascoal de Almeida, que datava de 1915, foi batido em 1938, vigorava há 22 anos, dez meses e 25 dias. Espírito Santo quando bateu o recorde nacional tinha 18 anos, 8 meses e 3 dias…


Pelo Atletismo: campeão e recordista nacional
Guilherme Espírito Santo foi campeão nacional e internacional no futebol, e também no… atletismo, sendo nesta modalidade recordista nacional em três especialidades. Caso único. Mais do que um grande futebolista, um enorme atleta português.

Recordista de Portugal em salto em altura, comprimento e triplo salto

TRIPLO SALTO
No salto em comprimento foi recordista nacional entre 1938 e 1941. Melhorou em 58,5 centímetros o recorde de Acácio Mesquita que datava de 1928, há 10 anos e deixou de ser recordista nacional em 1941, por 2,5 centímetros.

Marca
(m)
Dif.
Nome/Clube
Data
13,430
+ 49 cm
Acácio Mesquita (FCP)
01.Jul.1928
14,015
58,5 cm
Espírito Santo (SLB)
17.Jul.1938
14,040
  + 2,5 cm
João Vieira (SCP)
17.Ago.1941

SALTO EM COMPRIMENTO
No salto em comprimento foi recordista nacional entre 1938 e 1944. Melhorou em 9 centímetros o recorde de José Carvalhosa que datava de 1931, há 7 anos, foi igualado em 1941 por Edgar Tamegão e deixou de ser recordista nacional em 1944, por 6 centímetros.

Marca
(m)
Dif.
Nome/Clube
Data
6,80
+ 10 cm
José Carvalhosa (SCP)
13.Set.1931
6,89
+ 9 cm
Espírito Santo (SLB)
10.Jul.1938
6,89
=
Edgar Tamegão (AFC, Porto)
20.Jul.1941
6,95
+ 6 cm
Álvaro Dias (SCP)
26.Ago.1944

SALTO EM ALTURA
No salto em altura foi recordista nacional entre 1938 e Junho de 1940 e entre Agosto de 1940 e 1960. Melhorou em 0,5 centímetros o recorde de Pascoal de Almeida que datava de 1915, há quase 23 anos, deixou de ser recordista nacional em 1940 (durante 15 dias), por 1 centímetro. Melhorou o recorde nacional do salto em altura, por duas vezes, em 1940: em 11 de Agosto (1,85 metros, mais 1,5 centímetros) e em 25 de Agosto (1,88 metros, mais 3 centímetros).

Marca
(m)
Dif.
Nome/Clube
Data
1,820
+ 7 cm
Pascoal de Almeida (GSCQ)
8.Ago.1915
1,825
+ 0,5 cm
Espírito Santo (SLB)
3.Jul.1938
1,835
+ 1 cm
Pedro Vasconcelos (SLB)
16.Jun.1940
1,850
+ 1,5 cm
Espírito Santo (SLB)
11.Ago.1940
1,880
+ 3 cm
Espírito Santo (SLB)
25.Ago.1940
1,880
=
Rui Mingas (SLB)
Júlio Fernandes (SCP)
24.Abr.1960
1,900
+ 2 cm
Rui Mingas (SLB)
19.Jun.1960

Recordista de Portugal no salto em altura até 1960!
Os 1,88 metros no salto em altura duraram 20 anos, até… 1960, quando Rui Mingas do Benfica conseguiu melhorá-lo por 2 centímetros! Sem possibilidade de praticar, a nível elevado – com consistência e seriedade – duas modalidades, dedicou-se em exclusivo ao futebol! Passou rapidamente pelo atletismo, mas com o poder de uma estrela cintilante, num rasgo de brilhantismo inexcedível.

Fotografia de Roland Oliveira " O Benfica Ilustrado" n.º 14 de Novembro/1958
                               Guilherme Espírito Santo e Rui Mingas

Três anos afastado? Da equipa? Sim! Mas não dos corações vermelhos…
Na época de 1940/41, foi seleccionado para o XVI Portugal-Espanha, jogando a extremo-direito. Em 16 de Março de 1941 no Estádio San Mamés, em Bilbau, Portugal foi arrasado, com 1-5. Espírito Santo adoeceu, agravando a doença que se pensava debelada, pois em 1939/40 já estivera afastado devido a uma pneumonia contraída em Paris (28 de Janeiro de 1940) noutro jogo da selecção nacional. Após 16 de Março de 1941, seguir-se-iam três penosos anos. Foi necessário curar o paludismo – contraído ainda em criança, em Angola - e que afinal se revelara com as baixas temperaturas do norte europeu. Uma doença que o obrigou a “faltar” a 121 jogos consecutivos na equipa (o que faltava de 1940/41, 1941/42, 1942/43 e 1943/44, apenas regressando em 6 de Fevereiro de 1944. Ou seja, esteve inactivo nas passagens dos seus 22.º, 23.º e 24.º aniversário. Provavelmente, em termos etários, no seu tempo (anos 40) aquele que seria o tempo ideal. E mesmo assim conseguiria os valores que atingiu. Mas, quantos golos, triunfos e conquistas não poderia ter acrescentado ao palmarés do Benfica? Num tempo em que, o Benfica conquistou um Bicampeonato Nacional (1941/42 e 1942/43) e uma Taça de Portugal (1942/43).

Na estreia do jornal do Clube, n.º 1 em 28 de Novembro de 1942 (o jornal desportivo mais antigo de Portugal, vendido em banca) a preocupação dos Benfiquistas: Como está a evoluir a recuperação de Guilherme Espírito Santo. Ainda faltava ano e meio para o regresso!

Regresso para a vitória
Depois de tanto tempo inactivo, Guilherme Espírito Santo regressou em 6 de Fevereiro de 1944 para jogar a extremo-direito e conquistar a Taça de Portugal, em 28 de Maio de 1944, com uma espectacular vitória, por 8-0, ao GD Estoril-Praia, final realizada no estádio do CF “Os Belenenses”, nas Salésias. Quinze dias depois, em 10 de Junho, foi inaugurado o Estádio Nacional. Num jogo de 120 minutos foi Guilherme Espírito Santo a marcar o primeiro golo, aos 40 minutos.

Campeão nacional… mais um!
Na temporada de 1944/45 o Benfica reconquistou o título de campeão nacional, com Espírito Santo a jogar em 16 das 18 jornadas, com onze golos marcados. A competição foi interrompida entre a 14.ª e a 15.ª jornada para a selecção nacional realizar o seu 47.º encontro, no XV Portugal-Espanha, no Estádio Nacional, com um empate a dois golos. Espírito Santo jogou a extremo-direito. Estávamos em 11 de Março de 1945, quatro anos depois do aziago jogo em Bilbau, realizado em 16 de Março de 1941, que ditou o afastamento de três anos.


Mais um golo ao FC Porto numa vitória histórica
O campeonato nacional retomou com a 15.ª jornada, na recepção ao FC Porto, com mais uma extraordinária exibição dos futebolistas que vestem o “Manto Sagrado”. E mais uma vez, Espírito Santo brilhou. E como ele se recordava, tantas décadas depois, deste jogo. Uma jornada fundamental para a conquista do título de campeão nacional. Conseguido duas jornadas depois…


E chegou a despedida
Após 14 épocas no Clube, entre 1936/37 e 1949/50, se bem que duas sem fazer qualquer jogo, por doença (1941/42 e 1942/43) e mais três muito incompletas, também por doença (1939/40, 1940/41 e 1943/44), decidiu deixar o futebol. Aos 30 anos!

8 de Dezembro de 1949
No início da temporada de 1949/50, ainda novo, com pouco mais de 30 anos, depois de jogar como avançado-centro em três jogos, incluindo uma jornada do campeonato nacional – que lhe permitiu sagrar-se campeão nacional no final da época – abandonou a prática do futebol por pensar que não podia dar o contributo indispensável a um clube como o Benfica. O “Glorioso” organizou uma festa de homenagem e despedida, apoteótica, no estádio do Clube, no Campo Grande, em 8 de Dezembro de 1949. Os Benfiquistas consagraram um atleta – no futebol e no atletismo – de elite que representou o Clube dum modo inexcedível. Foram épocas de intensa actividade desportiva ao serviço de um único clube. Recebeu, em 31 de Julho de 1938, a “Águia de Prata” (ainda nem os 19 anos de idade comemorara...) e em 15 de Junho de 2000 o galardão máximo com a elevação a “Águia de Ouro”.



Oito títulos oficiais
Em 12 temporadas a jogar futebol, conquistou no “Glorioso” oito títulos oficiais: quatro campeonatos nacionais (1936/37, 1937/38, 1944/45 e 1949/50); três Taças de Portugal (1939/40, 1943/44 e 1948/49); e um campeonato regional de Lisboa, em 1939/40. A longevidade permitiu-lhe capitanear a equipa em 13 encontros, num total de 1030 minutos.

Mais de 300 jogos com o “Manto Sagrado”
Realizou pelo Benfica 316 jogos – 285 na Honra e 31 na Reserva – marcando, respectivamente, 199 e 26 golos, ou seja, um total de 225 golos. Nas 12 épocas a jogar pela principal equipa do Clube participou em 285 encontros, num total de 24 561 minutos, marcando 199 golos, ou seja, um golo a cada 123 minutos: em 156 jogos não marcou, mas obteve golos em 129 encontros – um golo em 84 jogos, dois golos em 29 encontros, três golos em 12 jogos, quatro golos em três jogos e nove golos num jogo. Enquanto futebolista da equipa de Honra, em 285 encontros, efectuou 280 jogos como titular, incluindo onze em que foi substituído e um em que foi expulso, por responder a provocações inqualificáveis. Em cinco encontros não foi titular, mas entrou a substituir outro colega.
Jogou como titular (280 jogos) essencialmente em duas posições – 154 como avançado-centro e 119 como extremo-direito (ou na ponta-direita). Mas, também, a interior-direito (seis jogos) e interior-esquerdo (um jogo). Na linha avançada, apenas não foi titular na ponta-esquerda (extremo-esquerdo) o que não quer dizer que durante algum jogo não tenha “passado por lá!” Foi, ainda, guarda-redes de emergência num encontro, durante 58 minutos (desde os 32 minutos), sofrendo um golo.


Goleador de excelsa qualidade
Pelo Benfica marcou 199 golos a 31 adversários diferentes, destacando-se  24 golos ao FC Porto, 21 golos ao Sporting CP e ao Casa Pia AC; 18 tentos ao CF “Os Belenenses”; 17 golos a equipas da Associação Académica de Coimbra; e, entre outros cinco golos ao Vitória SC, de Guimarães e dois tentos ao Boavista FC.
Enquanto titular (280 jogos) marcou 198 golos: 139 como titular a avançado-centro e 59 como titular a extremo-direito. Como titular, por que quando marcou algum destes golos podia já estar a jogar noutra posição por indicação do treinador. Mais um jogo como suplente utilizado. Curiosamente o seu primeiro golo com o “Manto Sagrado”, no jogo de estreia, em 20 de Setembro de 1936.
Dos 199 golos, 78 foram marcados no campeonato nacional, 45 no campeonato regional, 26 na Taça de Portugal, seis na Taça de Honra de Lisboa, oito em Torneios e 36 em jogos particulares.
Marcou 159 golos com os pés, 39 de cabeça e um com o corpo (tronco), com 18 a serem concretizados após lances de “bola parada” e 181 em lances de “bola corrida”. Dentro da grande área obteve 182 tentos, conseguindo ainda 17 golos “fora da grande área”.



Desportista até poder
Após deixar o futebol continuou a representar o Benfica na modalidade de Ténis, jogando durante três décadas, mostrando nos “courts” a sua vocação de desportista, sagrando-se campeão regional e nacional em representação do Clube. Em 2005 foi convocado para outro jogo: dar “mimo” à bisneta Marta, acompanhado pela sua senhora, companheira de uma vida.

A mimar a bisneta com a sua esposa

Pela Família: um exemplo de vida
Depois de deixar de jogar, continuou empregado no “Grémio das Mercearias”, onde se reformou em 1984, aos 65 anos. Uma vida pessoal (e familiar) muito preenchida: de Lisboa para Luanda, de Angola para Portugal e para o Benfica. Jogador popular, pela qualidade de jogo, capacidade em marcar golos e correcção para com todos – de companheiros, a adversários e espectadores – nunca deixou de ser quem sempre fora. Ainda hoje é assim! A família foi quem mais beneficiou, com o seu exemplo de pessoa íntegra e distinta. A última grande participação activa na Vida do Clube foi como Presidente Honorário do Centenário, em 2004. Tinha 85 anos. Um senhor, dentro e fora de campo e das pistas. Para sempre. 



Será eternamente uma Gloriosa Saudade

Alberto Miguéns
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